domingo, 28 de fevereiro de 2021

'Doença da urina preta': irmãs são internadas no Recife com Síndrome de Haff após comerem peixe, diz família

 Segundo o site https://g1.globo.com/pe/pernambuco: Flávia e Pryscila Andrade foram diagnosticadas com essa doença rara após ingerir arabaiana, segundo mãe e irmã. Secretaria de Saúde diz que estado tem cinco casos suspeitos.

Duas irmãs foram internadas em um hospital particular no Recife apresentando mal-estar e dores após a ingestão de peixe da espécie arabaiana. Segundo a família delas, os médicos confirmaram o diagnóstico de Síndrome de Haff, conhecida como "doença da urina preta" (veja vídeo acima). O governo de      Pernambuco informou que investiga cinco casos dessa doença rara no estado.

Os principais sintomas da Síndrome de Haff são:

  • falta de ar;
  • dormência e perda de força em todo o corpo;
  • urina cor de café (leia mais sobre isso abaixo).

A empresária Flávia Andrade, de 36 anos, e a irmã dela, a médica          veterinária Pryscila Andrade, de 31 anos, chegaram ao Hospital                Português, no bairro do Paissandu, na área central da capital          pernambucana, no dia 18 de fevereiro. A internação ocorreu horas                      após almoço, que tinha no cardápio o peixe arabaiana, também              conhecido como "olho de boi", de acordo com a mãe das pacientes,                     a empresária Betânia Andrade. O alimento foi comprado no bairro do                 Pina, na Zona Sul da capital.

"Flávia fez um almoço na última quinta-feira e convidou eu e Pryscila.                  Além de nós, tinha o filho de Flávia, de 4 anos, e duas secretárias.                      Os cinco comeram o peixe, menos eu. Quatro horas depois, Pryscila            enrijeceu toda, teve cãibra dos pés até a cabeça e não conseguia                  andar. Meu neto, de madrugada, teve dores abdominais e diarreia,                        e as duas secretárias sentiram dores nas costas", disse Betânia.                            Irmã das duas pacientes, a enfermeira e estudante de medicina Aline        Andrade gravou um vídeo e enviou para o WhatsApp da TV Globo               falando sobre o caso.

"As minhas irmãs comeram esse peixe e                   ele está aparentemente associado a uma              toxina que leva à Síndrome de Haff. Elas consumiram esse peixe e, quatro horas                  após, apresentaram os sintomas. É um                  período muito curto, é uma doença rara.                     A minha irmã [Pryscila] teve um quadro de                dor muito grande, ficou rígida, caiu dura no                  chão", contou Aline.

Ainda de acordo com a mãe delas, o diagnóstico da doença de Haff foi informado pelo hospital no sábado (20).                                                                    "Flávia foi visitar Pryscila na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e                      escutou o médico conversando com outra pessoa sobre uma doença                  associada ao consumo de arabaiana. Ela interrompeu a conversa e                  contou que tinha comido, com a irmã, esse peixe. Foi quando ele                  diagnosticou a síndrome de Haff em Pryscila e encaminhou Flávia                  para fazer exames, sendo internada no quarto, pois ela não aceitou                      ir para a UTI", disse.

A mãe também contou que,                    nesta terça-feira (23), Flávia continuava no quarto e Pryscila e                       permanecia na UTI.

"Flávia está no apartamento, pois baixaram as taxas dela, como de                      leucócitos. Já as taxas de Pryscila continuam altas, pois ela comeu                    uma porção maior do peixe e está com o fígado comprometido, os                     rins paralisados e com água no pulmão", afirmou Betânia.

Procurado pelo G1, o Hospital Português afirmou que não tem                      "autorização da família para envio de boletim médico" sobre o                         estado de saúde das duas irmãs.

A mãe das duas pacientes fez um apelo para que informações                              sobre a doença sejam mais divulgadas para a população com o                   objetivo de evitar outros casos.

“Essa é uma síndrome pouco conhecida, inclusive nos hospitais,                          é uma raridade. A fiscalização tem que bater em cima, pois estamos                   na Quaresma, quando se come muitos peixes e crustáceos. A                       população precisa ficar ciente que pode haver uma infecção”,                       relatou Betânia. Segundo o médico infectologista Filipe Prohaska,                     as causas da doença de Haff são pouco conhecidas, mas podem                     estar associadas a peixes como arabaiana e tambaqui mal    acondicionados (leia baixo mais sobre o assunto).

Casos da doença em Pernambuco

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) informou que, no                      fim da tarde da segunda-feira (22), "foi notificada, pelo Centro de       Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs) do                            Recife, de cinco casos de mialgia aguda, suspeitos para doença                        de Haff".

A pasta explicou que dá apoio técnico para a investigação                  epidemiológica conduzida pela secretaria municipal de Saúde                            do Recife.

"Após a notificação, a SES orientou sobre a investigação                         epidemiológica de todos aqueles que consumiram o alimento,                       assim como a coleta do referido insumo para encaminhamento ao                       Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen-PE)                      para que sejam providenciadas as análises laboratoriais. A doença                                de Haff é caracterizada pela presença de toxina biológica                        presente em pescados", disse.

Ainda segundo a secretaria, Pernambuco registrou, entre 2017                            e 2021, 15 casos da doença, sendo dez confirmados (quatro em                        2017 e seis em 2020) e cinco em investigação (em 2021).

"Por meio da Rede de Centros de Informações Estratégicas em                        Vigilância em Saúde (Rede Cievs), acompanha e mantém toda rede                      de serviços de atenção e vigilância do Estado alerta para a                                    notificação de casos suspeitos da doença", afirmou.

Também por meio de nota, a Secretaria de Saúde do Recife disse                        que "os casos estão sendo investigados pela Vigilância                   Epidemiológica  do município".

O que se sabe sobre a doença

As causas da doença de Haff ainda são pouco conhecidas. Ela                            é uma síndrome de rabdomiólise (ruptura de células musculares)                    sem explicação e se caracteriza por ocorrência súbita de extrema                      dor e rigidez muscular.

Outros sintomas são falta de ar, dormência e perda de força em todo                    o corpo, além da urina cor de café, associada à elevação da enzima                   CPK, relacionada à ingestão de pescados.                                                            “O músculo vai morrendo e criando uma  concentração de proteínas                     que o rim absorve e vai deixando a urina preta, nos casos mais                             graves. Se a absorção continuar, causa uma lesão no rim e eles                       param de funcionar. Por isso, o tratamento dos casos graves é                           com hemodiálise, para poupar o rim”, afirmou o médico                             infectologista Filipe Prohaska.

Ele atendeu pacientes com a doença em Pernambuco em 2017                           e disse que a síndrome pode deixar sequelas.

"É por causa da lesão renal. Se não for tratada, [o paciente] pode                              ficar em hemodiálise o resto da vida. E pode ter uma lesão                            muscular muito grave, chamado astenia pela miopatia, quando a                          pessoa fica como se não tivesse massa muscular, com dificuldades                    para levantar e exercer atividades comuns", explicou.

Infográfico Mialgia — Foto: Infográfico G1

Ainda de acordo com o médico, não é todo tipo de peixe que                              oferece riscos de a pessoa desenvolver a doença de Haff.

"Além de arabaiana, o tambaqui também tem essa toxina, que é um                   produto de degradação do peixe, o que ocorre quando ele não é                   transportado nem acondicionado em temperaturas ideais                                  (de --2 a 8 ºC). O grande problema é que essa toxina não tem                       gosto", declarou.

Médicos divergem sobre prevenção                      Filipe Prohaska listou alguns cuidados importantes para evitar a doença. "A                grande questão é saber a procedência                do peixe que você está consumindo.                  Checar se está sendo bem                      acondicionado no local da compra, se                o local garante a forma como ele foi                entregue. Quando comprar peixe na                    feira, tem que verificar se ele está condicionado no gelo, mantendo a temperatura, ou apenas exposto",                    disse.

No entanto, o infectologista Tiago Lôbo, que trata pacientes                             com a Doença de Haff na Bahia, onde houve um aumento de                      mais de 200% dos casos em fevereiro de 2021, tem um ponto                       de vista divergente.

"Não há um antídoto ou uma forma de identificar a toxina nos                    peixes. A toxina não modifica a cor do peixe, o cheiro ou o gosto.                  Também é termoestável, ou seja, não é destruída em altas                            temperaturas de cozimento. Por isso a gente não vai conseguir                       identificar", afirmou o infectologista.

"Mesmo estando muito bem armazenado, tratado e conservado,                          não é indicativo de que o peixe esteja sem a toxina", disse o                          médico.

Orientações gerais

Para a população:

  • Aos primeiros sintomas, busque uma unidade de saúde                    imediatamente e identifique outros indivíduos que possam                             ter consumido o mesmo peixe ou crustáceo para captação                                de possíveis novos casos da doença.

"O melhor tratamento é a hidratação rigorosa, tem que beber                                muita água, pois essa é a forma de eliminar a toxina de forma                                mais rápida, já que ela sai pela urina. Nos casos mais graves,                                com a urina escurecendo ou se parar de urinar, o ideal é procurar                          logo o hospital", disse o infectologista Filipe Prohaska.

Para profissionais de saúde:

  • Observar a cor da urina (escura) como sinal de alerta e o                       desenvolvimento de rabdomiólise, pois, nesse caso, o                          paciente deve ser rapidamente hidratado durante 48 a                                    72 horas;
  • Evitar o uso de anti-inflamatórios;
  • Na ocorrência de casos suspeitos, recomenda-se exame para                          dosagem de creatinofosfoquinase (CPK), TGO e monitorização                      da função renal.

       

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