quarta-feira, 2 de setembro de 2020

'Não sabemos o que fazer', diz prefeito da cidade no sertão pernambucano que atraiu 'caçadores' de meteoritos após chuva de pedras

 Segundo o site https://g1.globo.comBrasil não tem lei que impeça o comércio dos meteoritos. Órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia defende permanência dos itens no país para pesquisas, mas nenhuma autoridade brasileira mostrou interesse em manter as pedras no país.Pesquisadora da UFRJ no sertão de Pernambuco, em Santa Filomena, procurando os meteoritos. — Foto: Reprodução/redes sociaisApós o reboliço causado pela vinda de pesquisadores e 'caçadores' de meteoritos nacionais e internacionais interessados nas pedras que caíram no sertão de Pernambuco, em Santa Filomena, em 19 de agosto, o prefeito da então pacata cidade resolveu pedir ajuda para resolver a situação.

"A gente não tem uma legislação sobre meteoritos. É uma situação                 atípica, nunca imaginei que viveríamos isso. Qual o valor das                      pedras? Podem comprá-las e levá-las para fora do Brasil? Tem                              valor científico?", diz o prefeito do município, Cleomatson Vasconcelos.

Conforme o G1 apurou no domingo (31), desde 20 de agosto, Santa     Filomena tem recebido uma enxurrada de pesquisadores,           colecionadores e caçadores de meteoritos em busca das pedras.               O único posto de combustível da cidade virou local de comércio dos        minerais espaciais. O grama custa cerca de R$ 40.

"O município não tem condições de comprar as pedras e formar um            acervo aqui. A cidade é pobre, não temos indústria, quase toda a                  renda vem do governo federal. Cerca 90% aqui vive da agricultura",              conta Vasconcelos.

"O comércio das pedras deixou a população eufórica. E eu não posso            falar ‘não vendam’ se não tenho condição de oferecer coisa melhor                 que os compradores", explica o político, que também está preocupado          com o aumento dos casos de coronavírus no local por causa da vinda               de estrangeiros                                                                                                           

Ofícios e pedido de ajuda

Na manhã da segunda-feira (31), a prefeitura de Santa Filomena                         mandou ofícios ao ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações                                  e Comunicações, Marcos Pontes, e à Secretaria de Ciência e                            Tecnologia de Pernambuco pedindo orientação.

"Gostaríamos que as pedras ficassem aqui, mas não sabemos o                              que fazer e não temos recursos. Então pedimos aos governos                        federal e estadual que mandem pesquisadores ao município, que                    nos orientem em como agir, que façam um estudo sobre o                 acontecimento aqui", conta o prefeito. Ele não teve retorno dos                  órgãos até o momento.

Até o domingo (30), um único caçador de meteorito, um americano                vindo dos Estados Unidos somente para comercializar os minerais             achados no sertão, havia comprado 10 pedras, uma delas por                             R$ 18 mil. Após a publicação da reportagem, ele procurou a                         equipe do G1 e afirmou que estava pagando um preço justo à                    população, mas que iria embora após a repercussão do caso.

"Veja o que o governo dará a população [pelos meteoritos], nada.                          Eles [moradores] não receberão nada, por isso nós 'gringos'                       estávamos comprando", disse o caçador americano por meio                            de mensagem de texto.

O G1 entrou em contato por meio de telefone e e-mails com os                     ministérios da Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e                     de Minas e Energia perguntando a posição do governo federal                   quanto à venda dos meteoritos aos caçadores estrangeiros e se                    havia planos de manter os minerais no Brasil para estudos e                    pesquisas. As pastas não se pronunciaram.                                                              

Lacerda EM BUSCA DAS PEDRAS preciosas    

                                                                                                                           
Pedra rara “Quando eu vi a imagem que estava circulando na internet de um dos fragmentos                    do meteorito na mão de um rapaz, um baita de um complexo mineral verde, cheio de olivina,                na hora vi que era um condrito", explica o professor do Departamento de Geologia da                       Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fábio Machado, diretor-secretário da Sociedade                  Brasileira de Geologia.A composição química de um meteorito do tipo condrito, segundo o                  professor, é a mesma do início do sistema solar, formado há mais de 4,6 bilhões de anos.                         “Os condritos são os melhores fragmentos de meteoritos para se estudar a formação do                   sistema solar porque representam fielmente a composição química no início da formação                     dos planetas rochosos. Isso quer dizer que as pedras que caíram em Santa Filomena são                   mais antigas que a própria Terra", explica Machado. Ele é contra a compra e a manutenção                     de meteoritos nas mãos de colecionadores. “Quando se vê um meteorito que acabou de                     cair na Terra, verde do jeito que estava na foto de Santa Filomena, quer dizer que é uma                   pedra que estava perfeita para ser estudada, estava fresca, cheio de olivina”, afirma o               professor. A olivina é uma espécie de poeira com vários elementos químicos que envolvem                     os meteoritos recém-chegados à superfície terrestre. Conforme o meteorito entra em contato                   com a temperatura da Terra, com a umidade e o vento, a riqueza química da olivina vai se deteriorando. "Perdemos uma oportunidade grande de fazer um estudo brasileiro de relevância internacional com estas pedras. Virou essa confusão na cidade. Isso não era para ter                     acontecido”, diz. Apesar da lei não ser clara quanto à comercialização de meteoritos, para                       a Sociedade Brasileira de Geologia o comércio das pedras não deveria ser liberado. “Se a                   gente ver a legislação da Agência Nacional de Mineração, entendemos que o meteorito é                         um mineral, ocorre naturalmente na natureza, com todas as definições de um mineral. Como                 tal, ele é bem do Tesouro. Ele caiu no Brasil, então é bem da União e não pode ser                            comercializado. É como um fóssil, você não pode vendê-lo.”                                                                      O G1 pediu um posicionamento à Agência Nacional de Mineração por meio de telefone e e-mail, mas não obteve retorno.

Peças de museu

Ao contrário de países como Argentina e Austrália, onde os                                   meteoritos são bens públicos, o Brasil não tem legislação                              sobre a posse e o comércio de meteoritos que tenham caído                             em território nacional.

Apesar disso, o Museu de Ciências da Terra (MCTer), um                              equipamento público gerido pelo Serviço Geológico do Brasil,                       ligado ao Ministério de Minas e Energia, defende que um                        meteorito não deve ser comercializado, uma vez que o ser valor                           é científico.

"[Um meteorito] Pertence à humanidade, à sociedade humana                      como um todo. Qualquer país tem o dever de proteger o patrimônio                constituído pelos bens culturais existentes em seu território contra                        os perigos de roubo, comércio clandestino e exportação ilícita", diz o paleontólogo Diógenes de Almeida Campos, curador dos acervos                      do Museu de Ciências da Terra.

Quanto aos meteoritos de Santa Filomena, Campos afirma que eles                      devem ser mantidos no Brasil, em acervos de museus.

"Somente instituições como os museus têm as condições necessárias para assegurar a preservação,                          a pesquisa científica e a adequada apresentação para o público em geral desses bens que enriquecem                  a ciência e a cultura nacional", afirma o paleontólogo Diógenes de Almeida Campos, curador                                dos acervos do Museu de Ciências da Terra.                                                                                                      Entre os pesquisadores que estão na cidade, está a curadora do Setor de Meteoritos do Museu                             Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Elizabeth Zucolotto.

"Chegamos no dia seguinte à chuva de meteoritos e já não tinha                            lugar para ficar na pousada da cidade. Estamos hospedadas na                            casa de uma moradora", conta Zucolotto.

Além de buscar pedras para a pesquisa científica, a curadora                          pretende levar algumas para a coleção de meteoritos do Museu                                Nacional, uma das maiores do Brasil, mas que sofreu danos                             após o incêndio de grandes proporções que destruiu o local,                     em 2018.

meteorito mais cobiçado pesa quase 40 kg. Por causa do seu                            valor estimado, - ele recebeu uma oferta de pelo menos $120 mil -                         a pessoa que o encontrou não se identificou para a cidade e não                       foi informado o local onde o objeto caiu.

O morador Flávio Filó tem representado o homem que encontrou                         o meteorito, para que ele se mantenha anônimo. "Ele está com                      medo de se apresentar", diz.

Flávio conta que o objetivo é vender o meteorito ao Museu Nacional                       da UFRJ. "Tentamos entrar em contato com o Museu para oferecer                    a pedra, mas não conseguimos."

G1 procurou o Museu Nacional da UFRJ, mas a direção do                            equipamento não se pronunciou.

Museu em Santa Filomena

Localizada no sertão nordestino, Santa Filomena, a 719 km de Recife, tem 14.172 habitantes,                            segundo o IBGE. Cerca de 3 mil moram no centro, mas a maior parte está na zona rural, onde                       predominam plantações de feijão e mandioca.            Para o                         professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Antônio Carlos Miranda, os                   meteoritos caídos em Santa Filomena deveriam permanecer na cidade.

Comparando o comércio dos meteoritos com “um português que                             dá um espelho para o índio para levar o minério do Brasil”,                         Miranda e mais um grupo de pesquisadores tentam movimentar                      pessoas e governo em Pernambuco para deixar o meteorito na                             cidade.

”Nada mais justo do que o governo de Pernambuco e a prefeitura                        de Santa Filomena dizer que qualquer pedra que caiu é da cidade.                   Fazer uma guarda do material e fazer um projeto para capacitar os                  professores da região”, afirma Miranda.

O prefeito Vasconcelos conta que gostaria de fazer um museu na                  cidade, mas, com um dos menores PIB (Produto Interno Bruto)                          do estado, Santa Filomena não tem dinheiro para executar o plano.

"Seria ótimo para o município ter um museu de ciência. Isso atrairia pesquisadores, turistas e                        ficaria registrado o que aconteceu em Santa Filomena", diz o prefeito.  Morador de Santa Filomena divulgou imagem da venda de meteoritos para 'caçadores' americanos — Foto: ReproduçãoO estudante de administração Edimar da Costa Rodrigues, de 20 anos, foi um dos moradores que conseguiu vender                    o meteorito que encontrou, uma pedrinha de 7 cm e 164 gramas. Ele não quis revelar o valor da                   venda, mas afirmou ter vendido a um caçador americano.                                                                                           "Tem pouco comércio, nada que gere muito emprego. É bem humilde, de gente de baixa renda.                          A maioria das pessoas está achando muito bom. Eu tenho noção de que talvez essas pedras valham                bem mais, mas as pessoas precisam de uma renda", diz Edimar.

Mercado milionário sem legislação

Em Santa Filomena, os meteoritos que caíram em locais públicos,                        como a Praça da Matriz, ficaram com quem achou primeiro. Os que                      foram achados perto de casas ficaram com seus proprietários.

"Na prática, o Brasil acaba seguindo o padrão da lei americana, que                      é o seguinte: o meteorito é de posse do dono do local onde ele caiu",               explica o pesquisador da USP Gabriel Gonçalves Silva, que é membro                    da Bramon, rede brasileira de observação de meteoros.

A Convenção de Propriedade Cultural da Organização das Nações                      Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), assinada                  por mais de cem países, inclusive o Brasil, estabelece que um “bem                  de interesse científico” só pode ser levado de um país com                       autorização do governo local.

"Não existe qualquer legislação a respeito de comercialização de                      meteoritos no país, mas existem convenções internacionais,                   promovidas pela UNESCO de proteção de bens culturais, tais                        como meteoritos, por exemplo, que devem servir para fins                     científicos, enriquecendo o valor do conhecimento e da educação",                explica o curador Campos.


Ainda assim, há um comércio internacional aberto de meteoritos na internet. Em um site americano,                      há anúncios de diversos meteoritos por mais de R$ 300 mil, e um deles é oferecido por                                            R$ 1,38 milhão.                             Venda de meteoros pela internet — Foto: Reprodução           "O preço de meteoritos não segue um padrão, é um caso extremo de oferta e de procura", conta Silva.

A queda em Pernambuco "fez muito barulho entre os colecionadores e pesquisadores. Tem uma                         procura muito grande e de repente os preços aumentaram. Se saturar o mercado, o preço pode            despencar", ele afirma.                                                                                                                    

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