sábado, 28 de março de 2020

Federação do comércio em SP prevê 1 milhão de demissões na crise

Segundo o site https://noticias.r7.comEm entrevista ao R7, presidente da entidade, Alfredo Cotait Neto, afirma que as empresas não podem continuar fechadas se não houver contrapartidas            Alfredo Cotait Neto, presidente da Associação Comercial de SP                                                            O setor de comércio e serviços do Estado de São Paulo poderá ter a demissão de até 1,5 milhão trabalhadores em razão da crise econômica e dos fechamentos trazidos pelo avanço do novo coronavírus. A estimativa é do presidente da Facesp (Federação das Associações Comerciais de São Paulo) e da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), Alfredo Cotait Neto, que calcula que entre 10% e 20%, dos mais de 9 milhões de funcionários dessas áreas, perderão o emprego.
Aos 73 anos, o engenheiro e empresário afirma que a situação é “muito delicada” e que as empresas já começaram o processo de demissões e de fechamento. “É triste o que está ocorrendo”, avaliou, em entrevista ao R7.      Neto, que é filiado ao PSD, afirma que o setor quer voltar ao trabalho ao fim dos 15 dias de quarentena impostos no estado de São Paulo — até 7 de abril — e que isso ajudaria a salvar empresas e empregos. Admite, contudo, que a volta deve ocorrer sem atropelar as orientações sanitárias de combate à covid-19.
Para o empresário, houve falta de planejamento das autoridades para se chegar a uma situação de fechar o comércio de uma hora para a outra. Agora, caso a decisão seja manter a quarentena, contrapartidas são necessárias “para evitar que todo mundo quebre”, defende. Veja trechos da entrevista:
R7- Como está sendo o impacto dessa crise no comércio?
NETO - É uma situação extremamente delicada. O problema começa com a falta de coordenação. Existe um descompasso entre a esferas federal, estadual e municipal. As ações teriam que ter sido planejadas anteriormente a uma paralisação. Esse caso já estava sendo conhecido desde a China. Era papel dos nossos governantes se reunirem e criarem um gabinete de crise para que antes de fazer as paralisações eles já apresentassem quais seriam as medidas que permitissem isso. Mas eles simplesmente mandaram fechar o comércio.
Concordamos porque achamos que o mais importante são os cuidados da área de saúde. Esse isolamento é fundamental para que não haja a propagação exponencial do vírus. Porém, não foi dada nenhuma indicação para o comércio de como poderia se manter vivo. Nenhum estabelecimento comercial sobrevive a 15 dias fechado. Nós somos 420 associações comerciais no estado, mais de 300 mil empresas associadas. As micro e pequenas empresas vão quebrar porque não têm uma reserva de caixa.
Para se ter uma ideia, quando é criado um feriado, eu sou acionado para tentar negociar com as autoridades para ver se o comércio pode abrir porque aquele dia faz falta. Quantas vezes não brigamos para abrir ao domingo. Isso ajuda a empresa a cumprir seus compromissos. Funcionários, fornecedores, impostos. Como você vai conseguir dar conta de tudo isso se você só tem o custo?
R7 - Qual está sendo o impacto no emprego?
NETO - Na economia formal, o desemprego já está acontecendo. É instantâneo. O empresário não tem como ficar aguardando. Ele prefere dispensar do que ficar numa situação de nem poder pagar o funcionário. Numa previsão mais otimista, nós vamos ter na área de serviços um crescimento nulo, mas na mais pessimista uma regressão de 6%. O comércio é mais atingido que os serviços. Os restaurantes estão totalmente fechados. 
Vamos ter um desemprego no Estado de SP de 1 a 1,5 milhão juntando comércio e serviços. O que representa de entre 10% e 20% dos trabalhadores do setor, que são 6 milhões nos serviços e 3 milhões no comércio.
Na economia informal, a situação é ainda pior. Os informais, autônomos, os que fazem o bico, vivem do dia a dia. As contas estão vencendo e as pessoas não têm dinheiro para levar para casa.
R7 - As medidas já anunciadas pelo governo federal, como adiamento de pagamento de impostos e facilitação de férias ajudaram? E o anúncio desta sexta (27), sobre uma linha de crédito para financiar salários por dois meses?
NETO - Em relação às primeiras medidas, ajudam, mas ainda são insuficientes. Ainda preciso estudar melhor as novas medidas e ver como isso vai chegar lá na ponta, no pequeno empresário, que realmente precisa de socorro. 
A verdade é que vai todo mundo perder nessa crise, ninguém aqui está querendo ganhar. A gente tem que ter perdas que possamos aguentar, não as que deixem o empresário aleijado. 
R7 - O setor se prepara para a possibilidade de que a quarentena se prolongue em São Paulo?
NETO - Até 7 de abril, vamos respeitar porque foi uma medida sanitária correta. Se o governo quiser postergar, queremos saber do governo, primeiro, quem vai pagar os salários, se vai haver ou não a postergação dos impostos, obrigações acessórias, dívidas bancárias, a desoneração da folha de pagamento e assim por diante. A gente quer que o governo defina um programa claro para que as empresas, caso continuem fechadas, possam sobreviver. Se você mantiver o fechamento e não oferecer nenhuma contrapartida, todo mundo vai fechar.
A secretaria da Fazenda de São Paulo, por exemplo, não nos responde se vai postergar o ICMS. Assim como o governo municipal precisa postergar o IPTU e o ISS por um período equivalente. O que não pode é eles quererem receber e não deixar as empresas com sua liberdade de poder exercer sua atividade comercial.
R7 - Mas agora seria melhor voltar ao trabalho ou manter fechamento recebendo ajuda?
NETO - Essa é uma decisão que caberia para um estadista. Para nós, é evidente que quanto antes o setor voltar a ativa, você minimiza ao máximo a situação das famílias em termos econômicos. Mas precisamos olhar também a parte sanitária. Um líder seria aquele que conseguisse equilibrar a situação da saúde com a situação econômica e desse um norte para que isso pudesse ser feito. Ou seja, alguém que tivesse planejado isso antes.
R7 - Dá para fazer um novo planejamento a partir de agora, apesar do atraso?
NETO - Daria. Em vez de as autoridades estarem brigando, discutindo entre si, poderiam sentar e fechar uma estratégia. Têm que abandonar o modelo liberal e entrar com o modelo keynesiano. É pedir para o Estado assumir e abrir o talão de cheque. Paciência se você vai estourar os seus déficits, os seus limites. Se o Estado não injetar os recursos na economia, você vai quebrar o país, não tem jeito.
R7 - As vendas online estão ajudando a minimizar os efeitos da crise?
NETO - Essa é uma parte hoje considerável, representa quase 15% do volume de vendas. Numa situação como essa é uma ferramenta importantíssima. Porém, uma compra, que antes levava dias, hoje leva duas semanas para entrega. O sistema está abarrotado de pedidos, não dá conta. Há também vários estabelecimentos vendendo comida e que se beneficiaram do sistema de entregas por aplicativo. As vendas pela internet são o que está salvando um pouco agora, mas você não pode usar isso como uma solução de longo prazo para o setor.
R7 - Já as compras feitas em grande parte por impulso e que não têm tanto peso nas venda online sofrerão mais, certo?
NETO - O varejo já não começou o ano muito bem. Havia uma expectativa de melhorar agora no mês de março. Aí veio esse fechamento. O varejo está completamente destruído. Setor de roupas e utensílios, é triste ver. Eu recebo telefonema de empresários que lutaram a vida toda pedindo orientação, e eu não tenho resposta. Hoje eu sou um depositário de lamentações.
R7 - Como fica a questão como aluguéis devidos pelos comerciantes? Vai ter muita briga na Justiça?
NETO - Eu acho que vai haver bom senso porque atingiu todo mundo. Como a loja pode pagar o aluguel do shopping se não faturou? E a maioria dos aluguéis é sobre o faturamento. Como ela paga o condomínio e as outras despesas? O que vai ter que ter é acordo, parcelar as dúvidas. Se não ninguém vai receber nada.  

    Nenhum comentário:

    Postar um comentário