Um duro golpe que ameaça o futuro do atletismo brasileiro

Segundo o site https://veja.abril.com.br: O anúncio do fim do Clube B3, o maior no país na modalidade, traz um clima de incerteza para atletas e treinadores, em pleno ciclo olímpico para Tóquio-2020Clube de Atletismo BM&F (Agência Luz/BM&FBOVESPA/.)
Na Olimpíada Rio-2016, o atletismo do Brasil viveu seu maior momento em muitos anos, com a incrível conquista da medalha de ouro no salto com vara de Thiago Braz, com direito a recorde olímpico e superando na final o favorito e então campeão, o francês Renaud Lavillenie. Menos de dois anos depois, a modalidade ameaça afundar numa crise sem precedentes e com consequências imprevisíveis para o futuro, após o anúncio do fim da equipe B3, feito esta semana. Um clima de incerteza e medo atinge seus 57 atletas, muitos de elite do atletismo, além de 13 treinadores.
“Estou vivendo um pesadelo. Fico imaginando o que será do atletismo. Estamos perdendo o principal apoiador”, afirmou o ex-maratonista Marílson Gomes dos Santos, que tem uma relação de mais de 20 anos com o clube, primeiro como patrocinado e depois como contratado da BM&F, antiga denominação da equipe B3.                                                                               A preocupação de Marílson, que desde sua aposentadoria como atleta atuava como supervisor nas categorias de base do clube, não é exagerada. A equipe B3 é a principal força do atletismo brasileiro e era o grande destaque de um projeto que completaria neste ano três décadas. Na Olimpíada de Seul-1988, o projeto criado pela BM&F visava a distribuição de 4,05 kg de ouro aos brasileiros que subiram ao pódio na Coreia do Sul, entre eles o judoca Aurélio Miguel, ouro naqueles Jogos.
A premiação com barras de ouro foi ampliada pela Bolsa ao longo dos anos, até que em 2001 foi criado o Clube BM&F de atletismo, após encampar a equipe da Funilense, que já era a principal do país. Alguns dos maiores nomes do atletismo competiram pela equipe nesse período, como Fabiana MurerMaurrem MaggiVanderlei Cordeiro de Lima e Jadel Gregório.
Só que 17 anos depois, já sob o nome B3 (que nasceu da fusão da BM&F com a CETIP), veio a decisão de terminar com a equipe. A empresa, porém, comprometeu-se em pagar os salários dos atletas até o fim de 2018, que provavelmente serão transferidos para a equipe da Orcampi, de Campinas.
Na última segunda-feira, a B3 divulgou uma nota, explicando a decisão:
“Com o objetivo de alinhar a estratégia de investimento social privado da B3 à evolução de sua cultura corporativa, a B3 Social (OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) passa a atuar a partir de 2018 direcionando seus recursos para atividades vinculadas a Educação e Formação de jovens para o trabalho. Educação é um eixo estratégico para a B3 e um tema que permeia o negócio. É parte do compromisso com o avanço dos mercados e, consequentemente, do País.
Com esta definição estratégica, tem início agora um processo de transição da B3 Atletismo. Em respeito a uma história de 30 anos no esporte, e a fim de conduzir essa transição com o menor impacto possível, a B3 Social continuará apoiando o atletismo com aportes financeiros ao longo de todo o ano de 2018 e está em tratativas para a doação de todo seu acervo esportivo a outras instituições tradicionais do atletismo. A B3 reconhece e agradece a grande contribuição de toda a equipe, gestores, parceiros, patrocinadores e a imprensa esportiva em todos esses anos.”

Futuro indefinidoMarílson Gomes dos Santos tem mais de 20 anos de ligação com a equipe B3 (Buda Mendes/Getty Images)

Embora a empresa se comprometa em seguir pagando os salários dos atletas que possivelmente se transferirem para a Orcampi – que já funcionava como uma espécie de equipe satélite da B3 -, o clima de indefinição é total. “Tudo ainda é muito novo, muito recente. Ainda existem uma série de trâmites que estão acontecendo. Não sabemos  ainda o que vai ocorrer de fato. Vamos precisar de novas parcerias para manter todos os 57 atletas. Será muito difícil encontrar uma outra equipe que apoie o atletismo da maneira como a Bolsa nos apoiava”, disse Marílson, ele mesmo sem saber como será o seu futuro.
“Tinha como função na equipe ajudar a desenvolver as categorias de base, dar apoio aos atletas que chegavam de fora e não sei qual será o meu futuro. Quero ver se consigo me manter dentro do atletismo de alguma forma. Ainda estou sem chão, sem saber o que fazer”, disse Marílson, duas vezes campeão da tradicional Maratona de Nova York e dono de cinco medalhas em Jogos Pan-Americanos, com destaque para o ouro nos 10.000 metros em Guadalajara-2011. “Não dá para imaginar ter chegado onde eu cheguei, saindo lá de Ceilândia, se não tivesse o apoio do clube”, comenta Marílson.
As dúvidas que atormentam o ex-fundista brasileiro também preocupam Ricardo D’Angelo, coordenador-técnico da B3 e que passou a semana tendo como única preocupação em tocar o processo de transição com a Orcampi. “Nos primeiros dias,a gente tenta absorver a notícia, mas agora temos que buscar soluções e acomodar todos os atletas do projeto. Precisaremos de um tempo para fazer todo este alinhamento, mas acho que o processo está sendo bem encaminhado”, afirma, tentando mostrar otimismo.
Para D’Angelo, os maiores problemas nem deverão acontecer nesta temporada mas sim em 2019. “Precisamos trabalhar rápido em busca de alternativas. Será difícil para a Orcampi absorver todo mundo a partir do ano que vem e o número de equipes competitivas no Brasil atualmente é bastante limitado. Mas é fato que o fim da equipe terá um efeito muito grande para o atletismo brasileiro. Acho que voltaremos uns 20 anos em termos de estrutura”, prevê o treinador.
O treinador também se preocupa com as instalações do moderno Centro de Treinamento localizado em São Caetano do Sul, que teve um investimento de R$ 20 milhões para erguer duas pistas, uma delas coberta, além de grande estrutura de atendimento ao atleta na área de musculação, fisioterapia e nutrição. “Ainda não sei se a direção da empresa conversou com a prefeitura de São Caetano, que é onde o clube está hospedado. Porque a gente vai precisar usar o CT de qualquer forma, para que os atletas possam treinar visando as competições”, explica.
Em meio ao sentimento de tristeza e dúvida, o coordenador-técnico da B3 tenta encontrar um ponto positivo. “É até irônico dizer isso, mas uma coisa que me deixa satisfeito foi a boa imagem que o clube deixou. Em todas as reportagens sobre o final da equipe, o projeto foi altamente elogiado. O modelo da B3 foi um case de sucesso, havia apoio financeiro para todas as áreas, os atletas eram registrados no regime CLT, além do clube enviá-los para campings de treinamento no exterior. Tudo isso é motivo de orgulho para mim”, diz Ricardo D’Angelo.

Confederação preocupada

CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) vem acompanhando à distância o processo do fim do Clube B3, com preocupação mas também com uma dose de cautela, até aguardar os efeitos claros que a decisão da empresa trará à modalidade. “Com esta indefinição do cenário para o futuro, exste sim uma preocupação. O próprio COB [Comitê Olímpico do Brasil] está preocupado. Mas temos que aguardar o cenário para ver como poderemos suprir as deficiências. Este ano ainda será de acomodação e a partir de 2019 teremos uma situação mais clara”, afirma José Antonio Martins Fernandes, presidente da CBAt.                   osé Antonio Martins Fernandes, presidente da CBAt, acha que a situação irá se acomodar (Carol Coelho/CBAt/Divulgação)  O dirigente diz que oficialmente, a entidade que comanda o atletismo nacional ainda não foi informada pela direção da B3 sobre a forma com que as atividades da equipe irão prosseguir. Mas embora reconheça que a perda será muito grande para a modalidade, confia que a própria estrutura existente no Brasil será capaz de absorver tanto os atletas como os treinadores. “Claro que o atletismo irá sentir com o final de uma equipe estruturada como é a B3, mas temos grandes equipes que aos poucos poderão absorver estes atletas. Historicamente, o atletismo brasileiro tem essa característica de capilaridade. É assim desde os anos 40, 50”, explica Fernandes.
Segundo o presidente da CBAt, além de contar com fortes equipes como a Orcampi, PinheirosSogipa e Centro Olímpico-SP, as prefeituras de muitas cidades do interior de São Paulo costumam investir para a disputa de Jogos Regionais e Jogos Abertos. “Claro que possivelmente não surgirá uma equipe nos próximos meses com a estrutura da B3, mas confio que as coisas aos poucos irão se acomodando”, afirma o dirigente.

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