sábado, 27 de julho de 2019

Agressividade do mar de Salvador assusta pescadores: 'Nunca esteve tão violento'

Segundo o site Correio Salvador: Ondas destruíram barcos e restaurantes esta semana; mau tempo continua
Acostumado a sair para pescar quase todos os dias no Verão, o pescador Arivaldo de Sousa Santana, presidente da Colônia de Itapuã, está há semanas sem entrar no mar. O motivo é o mar agitado durante esse período de tempo chuvoso em Salvador - segundo a Marinha do Brasil, as ondas estão chegando a até 3,5 metros de altura. 
“Nunca aqui em Salvador o mar esteve tão violento. A ondulação está muito grande", disse.
Apesar do cenário nada favorável para a pesca, Ariovaldo tem esperanças de que ao final desta semana o sol vai aparecer. "Quando há um temporal anunciado, ele recua logo aqui. Esse começou na quinta, foi evoluindo e até hoje não recuou, mas acredito que na quarta ele já vá começar a diminuir e sexta eu possa pescar. O tamanho da onda está enorme, é muito arriscado entrar no mar assim”, torceu ele.
Apesar das expectativas do pescador, as notícias não são boas para ele: o reencontro com o mar deve demorar, afinal, não há previsão para o término das chuvas na capital baiana, que permanecerão durante toda a semana.
Segundo a meteorologista Cláudia Valéria, os constantes ventos ao longo do litoral são característicos do período de Inverno em Salvador. “Julho e agosto são meses com mais ventos na costa. O volume de chuvas está dentro da normalidade. No Inverno, os ventos sopram mais intensamente ao longo do litoral”, explicou                                                                                        
Um aviso de ventos costeiros perigosos, inclusive, foi emitido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O fenômeno, que começou na manhã de segunda (22) e deve permanecer até a manhã desta quarta (24), atinge o Nordeste, Sul e Recôncavo da Bahia.
Além do forte vendaval, a Marinha do Brasil destaca a presença de um forte sistema de alta pressão atmosférica no mar - uma massa de ar polar atuando nas costas das regiões Sudeste e Nordeste. Além disso, em alto-mar, até quinta-feira (25), haverá a presença de ondas entre 3 e 3,5 metros.
Previsão é de mar agitado até o fim da semana (Foto: Arquivo CORREIO)
“Não há previsão para a interrupção da chuva. Teremos dias com abertura de sol, mas temos previsão de precipitações para os próximos dias. O sol começa a se firmar mais persistente somente a partir da Primavera”, acrescentou a meteorologista, ao citar a próxima estação, que começa no dia 23 de setembro.
       
Durante toda esta semana, a previsão é que o mar permaneça agitado. A altura das ondas será mais significativa nesta terça-feira (23), com 3 metros, seguida de uma leve redução a partir de quarta-feira (24), quando elas devem atingir 2 metros. Segundo a startup baiana i4sea, também devem ocorrer ventos bastante intensos durante toda a semana. Isso não significa, no entanto, alerta para os banhistas, que só podem ser emitidos pela Marinha.
Alternativas
Assim como Arivaldo, a pescadora Alessandra Fernandes, 38, conhecida como Dandinha, já está há quase um mês sem entrar no mar, local que ela define como sua segunda casa. Há 24 anos na profissão de pescadora, ela tem buscado outras formas para obter dinheiro durante o Inverno.
A saída encontrada por Dandinha foi ir até a costa do Rio Vermelho, onde costuma pescar, para catar camarão e mariscos para vender. Já Ariovaldo conta com a reserva do salário da esposa, que é professora. 
Apesar das condições do mar, que afetaram os pescadores, a navegabilidade de embarcações que estão atracando no porto de Salvador, localizado na Baía de Todos os Santos, segue normalmente. O comandante Ricardo Blanquet, gerente da Bahia Pilots, empresa que atende pedidos de manobras de navios no porto, destacou que, além da existência de um centro de operações, a estrutura de Salvador é a melhor em termos de navegabilidade do Nordeste.
Há estações meteorológicas em Salvador, Madre de Deus, Ilhéus e Aratu, que fornecem variáveis como intensidade e direção de vento. “Existe um limite operacional imposto pelo porto, por exemplo, do vento. Quando o navio está chegando e a condição está superior ao limite estabelecido, ele não atraca, ele fica fundeado”, explicou Ricardo Blanquet.
O gerente destacou que os sistemas utilizados pela empresa fornecem os dados necessários para analisar se a operação é segura e para “manter o comércio, comunicação e economia pujantes”. “As condições atuais estão com intensidade de vento alta, mas não superior ao permitido, e o tipo de onda também não está influenciando ao ponto de interromper as atividades. Não houve, nas últimas semanas, nenhum momento em que tivemos que interromper as nossas atividades. Cada situação é analisada pontualmente”, concluiu. 
Gamboa
A força das águas destruiu um píer de um restaurante no bairro da Gamboa de Baixo, em Salvador, nesta terça-feira (23), além de submergir cerca de 15 barcos e desmantelar outros quatro. 
Morador da Gamboa há cerca de 50 anos, o pescador José Francisco Vales, conhecido como Seu Pitoco, também está assustado com a força da maré. "Em todos esses anos morando aqui, nunca tinha visto algo assim. Aqui a água sempre entrou nas casas, mas nada que nos abalasse. O píer desabou completamente com a força da água, não sobrou nada", contou.

Construído há cerca de 20 anos, o píer que ficou destruído na Gamboa pertencia à estrutura da área externa do Restaurante da Mônica. Em todos os anos trabalhando no estabelecimento, é a primeira vez que Mônica Arcela, 48, viu maré tão intensa. 
Mônica ficou assustada com força da maré (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)
"Pela manhã, desabou a primeira parte, mas eu não achava que seria mais do que isso. Pela noite, desabou o restante. Ficamos preocupados, com medo da água entrar nas casas das pessoas. Sei da dificuldade de ter um comércio aqui. A força da natureza causa essas coisas, mas, como boa baiana, não posso desistir. Vou reconstruir tudo com a ajuda dos amigos do bairro", contou ela.
A Defesa Civil do Salvador (Codesal) informou ao CORREIO que não recebeu solicitação para atender ocorrência no local. Além disso, os 15 barcos que submergiram na localidade foram resgatados pelos próprios pescadores da localidade.
Um dia depois de perder parte do próprio restaurante, o empresário João Crisóstomo, dono do Beco do Canal estimou o prejuízo em cerca de R$ 50 mil. O estabelecimento fica em Arembepe, em Camaçari, e viu a varanda de alvenaria e madeira ceder diante da fúria do mar. A água invadiu também o salão principal e obrigou o proprietário a abandonar o imóvel que funcionava próximo por medo de novos desmoronamentos.
Já João Sá, dono do restaurante Mar Aberto viu parte da varanda do estabelecimento ser engolida pelo oceano. Ele ainda não fez a estimativa dos prejuízos, mas contou que o salão e a varanda coberta não foram afetados, por isso, o espaço está em funcionamento. Na orla, coqueiros, calçada e outras estruturas foram arrancadas com a força da água.
Litoral Norte
O estrago do mar tamnbém chegou ao Litoral Norte. Ondas de cerca de 4 metros atingiram quatro restaurantes e outras 11 casas nesta segunda-feira (22) em Arempebe, que fica em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS). Três restaurantes foram interditados pela Defesa Civil da cidade.
O vento chegou a 60 km/h. A ressaca também causou estragos em Jauá, praias de Mata de São João e em uma barraca de Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas.
Além das perdas materiais, um turista morreu afogado na praia de Arembepe. De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Camaçari, Ivanaldo Soares, o homem entrou no mar mesmo com a interdição da praia. “O Graer chegou a resgatar ele, mas ele faleceu. Todo o litoral está em risco e a gente nem imaginava que ele fosse no mar”.
Nem as construções resistiram à força do mar. A Defesa Civil de Camaçari aponta que quatro restaurantes e 11 residências foram parcialmente ou totalmente interditadas na segunda (22). Entre eles, está o restaurante do Beco do Canal, que era a principal fonte de renda de João Crisóstomo e teve seu salão totalmente destruído. A construção ficava na praia e, mesmo acima do nível do mar, foi levada.
Eu nunca vi uma maré tão forte assim. Há uns 15 anos aconteceu uma ressaca com algum prejuízo, mas esse ano foi maior. O salão acomodava 30 mesas, imagina o prejuízo. Em agosto não podemos fazer nada.Vamos ficar mais de um mês fechados”, narrou ele.
Parte do restaurante Ouro Fino também foi danificado e o estabelecimento teve interdição parcial. A dona do local, Irandir Reis, no entanto, não vai fechar as portas.
Outros estragos
A praia de Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas, na RMS, também foi afetada pelo mau tempo. De acordo com a prefeitura da cidade, a barraca Araruama foi a que mais sofreu com a ressaca. Nesta terça-feira (23), representantes da Defesa Civil estiveram no local e informaram que não houve danos a pescadores ou as comunidades.
Na praia de Cacha Prego, em Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, a força das ondas destruiu algumas estruturas e derrubou coqueiros. A prefeitura não divulgou o número de imóveis atingidos.
Em Salvador, duas crateras foram formadas por conta da ressaca. No bairro da Ribeira, na Cidade Baixa, surgiu um buraco em frente à igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha, na Avenida Beira Mar. Já na Pituba, parte da calçada da Avenida Octávio Mangabeira precisou ser interditada porque o solo que sustentava a estrutura foi levado com a força da água. Os dois locais foram vistoriados pela prefeitura.
Cratera aberta na Ribeira (Foto: Arisson Marinho/ CORREIO)
Segundo o oceanógrafo e mestre em Engenharia Oceânica, Bruno Scherr, apesar dos estragos provocados pela força do mar, esse tipo de intensidade das ondas é comum nesta época do ano. Elas são provocadas por mudanças no clima no hemisfério sul e ocorrem com periodicidade diversas.
“No Outono e Inverno existe maior incidência de formação de fenômenos atmosféricos com ventos fortes no hemisfério sul, e são eles os responsáveis por gerar as ondulações. O processo é simples, as ondas são resultado de ventos intensos por longo período e em grandes áreas, o que chamamos de pista de vento. Isso tudo se torna mais frequente nesta época do ano e, por isso, as frentes frias chegam do sul”, afirmou.
Engenheiros da Codesal observam o estrago na parte inferior da calçada da Pituba (Foto: Divulgação/ Codesal)
Scherr disse ainda que os banhistas precisam reforçar os cuidados na hora de entrar no mar durante essa época do ano porque, além de provocar ondas maiores, a mudança no clima intensifica as chamadas correntes de retorno. “São trechos da praia em que há correntes que te puxam para dentro do mar. Elas seguem a força do vento e, como eles estão mais intensos nessa época, elas ficam mais fortes”, disse.
A recomendação vale também para quem está em alto-mar. É comum que no Outono e no Inverno algumas correntes mudem de sentido, por conta dos ventos. Por isso, é importante que pescadores e marinheiros fiquem atentos aos boletins divulgados pela Marinha do Brasil.  
Cuidados
A Coordenadoria de Salvamento Marítimo (Salvamar) registrou 609 ocorrências de afogamento de janeiro a julho deste ano em Salvador. Com média de 87 salvamentos por mês, o número corresponde a 61% do obtido durante todo o ano passado, quando 997 registros foram feitos e a média foi de 83 casos mensais. Em todo o ano, foram três mortes.
"Somente neste mês tivemos 57 ocorrências, o que também é um número alto, maior do que o mês passado. Esses números correspondem a um trecho de 25 km de orla, entre o Jardim de Alah e Ipitanga, que é onde o Salvamar atua", destacou o chefe de salvamento da Salvamar, Januário Brito.
Neste final de semana, apesar do mau tempo e de inúmeros registros de incidentes na costa soteropolitana, somente duas ocorrências foram registradas nessa faixa de orla.
Para o chefe de salvamento, o número alto ocorre em decorrência do mau tempo, que traz maior dificuldade no salvamento das pessoas. "Geralmente nós temos mais ocorrências durante o Verão, quando as pessoas vão mais frequentemente à praia. Em compensação, os meses de julho, agosto e setembro envolvem uma dificuldade maior nos salvamentos. Esses meses costumam ter mais ocorrências fatais, mas nesse anos não tivemos, até então, nesse período", destacou Brito.
O chefe de salvamento lembrou ainda que o período entre junho e agosto compreende as férias dos baianos e de outros estados fora daqui. "Salvador é uma cidade turística e pessoas do Brasil todo visitam a cidade nesse período. Apesar de Salvador fazer sol, a maré sempre 'dá um tombo' nesse período e o mar fica revolto", disse.
DICAS PARA O BANHISTA:
- Tenha respeito e prudência com a natureza;
- Sempre procure locais com postos de salva-vidas;
- Localize o salva-vidas e questione o local adequado para banho;
- Tenha atenção: a praias são as mesmas, mas as condições não. Uma praia pode ser perigosa em um dia e tranquila no outro;
- Sempre observe a sinalização: bandeira vermelha é sinal de perigo. Não entre no local.
                                   

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